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segunda-feira, 20 de maio de 2013

inferno


DO INFERNO


Você tem medo de morrer? Ou tem medo do que vem após a morte?

Posso lhe contar sobre o inferno, se você quiser ouvir. Quer saber se é um lugar feio? Aqui existem lugares lindos também, iguaizinhos ao paraíso. Mas acho que servem apenas como lembrança, para você saber o que perdeu, sei lá. O que faz do inferno o pior de todos os lugares é a repetição. O inferno é pura repetição.

O que eu quis dizer com isso? Bem, você fuma? Então, seria melhor considerar parar, você não imagina o que é passar a eternidade com um cigarro colado aos lábios, ou inalando uma fumaça fétida que te corrói lentamente, te matando de novo e de novo, incontáveis vezes. Aqui sofremos punições de acordo com nossas culpas, parece ser uma coisa justa até, sabia? Aquele florentino maldito, il sommo poeta, estava certo sobre um monte de coisas.

Quem eu era antes de estar aqui? Pouco importa. Eu também não fiz grandes coisas para merecer este lugar. Lembro-me de ter sido declarado um Fornicador e essa foi minha ruína. Mas até que foi ameno, pois sei que os pervertidos sexuais sofrem mais que eu. Eles gritam o tempo todo, é horrível.

E aquela história de suas tripas serem devoradas por monstros, você ser açoitado por chicotes e tridentes, arder em chamas brandas até o fim dos tempos? Calma, não se preocupe, isso não existe. As coisas são piores. Por exemplo, dia desses encontrei por aqui uma menina linda, linda mesmo. Só que a pele dela era azulada, as unhas roxas, os olhos levemente saltados das órbitas, e, coitada... ela não conseguia guardar a própria língua dentro da boca! Triste sina para uma suicida.

Fui humano um dia, sim. Era um Fornicador, como já citei antes. Ganhei esse singelo apelido de meus novos amigos, se bem que às vezes até parece ser um título, sei lá. Era um senhor rico, cheio de posses, numa época de superstições, lendas e ignorância.

Eu era rico o suficiente para ser abençoado pela igreja, e assim ela fazia vista grossa para minhas excentricidades. Fui muito feliz na minha vida terrena, com um baronato, status e todas as mulheres do mundo conhecido. Meu feudo era vasto, próspero e continha várias aldeias de camponeses que me prestavam a corvéia, ou seja, trabalhavam de graça em minhas terras em troca de sobrevivência. Sim, sim. Bons tempos! Mas o diabo dá com uma mão e toma com a outra.

Era uma noite muito quente, quando eu vi uma agitação fora dos muros de minha casa, na floresta dentro de meus domínios. Despachei meus homens para investigarem o que acontecia, pois vi algumas fogueiras acesas.

Quando eles voltaram, me informaram do casamento de uma dócil camponesa e que os noivos estavam comemorando. Questionado por mim, meu homem de confiança respondeu que ela era muito bonita. A luxúria dentro de mim se retorceu, sussurrando "jus primae noctis".

-Traga essa mulher para meus aposentos. Ela será minha, antes de ser do esposo.

Ele engasgou seco, e partiu para cumprir minha ordem. Até pensei em acompanhá-lo, para ver pessoalmente a indignação dos camponeses mas isso seria grosseiro até mesmo para alguém com tantas falhas de caráter como eu.

Em menos de vinte minutos, eu estava admirando a jovem camponesa. O olhar furioso a deixava ainda mais bela. Devia ter entre dezoito e vinte anos. Era loura, de pele dourada de sol e mãos pequenas, porém calejadas do trabalho diário. Tinha algumas cicatrizes pelo corpo, e um jeito rude e dócil ao mesmo tempo de se mexer. Um enigma.

-Sabe que posso desvirginá-la antes de seu marido, não? É um direito meu. Sou dono de todos vocês.

-O senhor pensa que pode tudo. Tolo. Não sabe com o que está se metendo. Farei seu jogo, mas sua alma pagará por isso. O verdadeiro sofrimento não está nesse mundo, e sim no próximo!

Eu não temia mais aquelas ameaças vazias de camponesas. A maioria delas se diziam bruxas e que me amaldiçoariam, mas nunca nada me aconteceu. Certa vez uma delas me rogou toda uma litânia de pragas e maldições mas, quando pendurada na forca, pediu clemência se mijando toda.

-Tire as vestes.

Estranhamente, ela não tirou. Ao contrário, veio para cima de mim e começou a tirar as minhas, impaciente.

Quando eu estava totalmente nu e com minha masculinidade exposta, a fúria inicial dela transformou-se em docilidade. Ela enfim começou a se despir. Tinha mais cicatrizes escondidas. Mas a visão daquele belo corpo nu, da penugem macia entre as coxas, loura como seus cabelos, os seios médios, como duas peras no ponto e as pernas bem torneadas me excitaram. Minha ânsia de entrar por aquelas coxas e rasgar sua virgindade me cegava para todos os avisos de que algo estava completamente errado.

-Venha meu senhor. - ela me convidou para a posição missionária, deitando-se na cama e abrindo as pernas.

O sexo naquela época era bem mais simples, o homem apenas se concentrava em penetrar e se satisfazer. No meu caso, as mulheres se maravilhavam com meu dote e com o tempo que eu resistia durante o coito.

Porém antes que eu a penetrasse, a mulher me segurou como nenhuma outra fizera antes e ajoelhou-se de maneira profana. Sentia a respiração quente em minha genitália quando ela sussurrou, quase um gemido:

-Pense em mim como um anjinho tocando a flauta celeste, meu senhor.

Nenhuma mulher antes tinha tocado minha intimidade daquele jeito. Existe uma clara diferença entre você mandar uma mulher fazer algo e ela fazê-lo espontaneamente. Ela chupava como uma fruta madura, segurava firme os bagos, e fazia movimentos tão úmidos quanto excitantes com a boca. E o barulho daquilo? Nunca sentira nada igual. Por um momento, meu poderoso garanhão que aguentava firme por horas quase se entregou. Estava quase indo naquela boca, e parecia ser aquilo mesmo que ela queria, pelo olhar com que me encarava de baixo para cima. Enxerguei nesse momento que ela tinha duas grandes marcas que cortavam e desciam pelas costas, o que me causou estranhamento.

Segurei firme os cabelos louros, afastando aquela boca faminta de mim. Ela grunhia, e me puxava pelas pernas para penetrar a boca quente e ávida novamente. O mundo perdeu o sentido por um instante louco, e eu deixei que ela sugasse tudo.

Nem um minuto se passou quando me acabei, molhando sua boca, queixo e todo seu rosto, que se deliciou. Era muito estranho comportamento para uma simples camponesa. Mas o calor da cama me fazia esquecer o raciocínio. Ordenei que lavasse o rosto antes de me cavalgar como Lilith, e ela atendeu prontamente. Eu precisava de tempo para recompor minha virilidade.

Podia ser impressão, mas algumas cicatrizes dela sumiram, enquanto sorria. Lavou o rosto, engoliu água em grande quantidade e gargarejou, cuspindo pela janela. Quando ela se encaixou em cima de mim, disse, sorrindo:

-Nunca experimentei um tão grosso, grande e leitoso como o seu. Esses camponeses que o senhor explora são fracos, mínimos, pequenos. Quero ver o quanto ainda me dará.

Estranhei o fato dela não ser mais virgem. Geralmente esses camponeses guardam as filhas com cintos de castidade, vigilância cerrada e medo católico. Sexo oral era sexo antinatural, ela poderia ser punida com uns bons seis anos de jejum por aquele ato obsceno. Por que essa era tão diferente? A maioria das mulheres de meu tempo só praticavam o sexo vaginal, ficando sempre por baixo e no escuro. Não podiam ver a nudez do outro. Eram frias como peixes mortos, apenas abriam as pernas, raramente se mexiam, ou falavam algo durante o coito. Ela não! Rebolava, gritava, arranhava minha carne, me falava e pedia coisas que só de ouvir sentia vontade de inundá-la com meu caldo.

Foi quase uma hora. Eu suava muito, ela estranhamente não. Só mantinha um ritmo em cima de mim. Lambia meus dedos, depois segurava minhas mãos e com elas apertava os seios duros, me guiava em toda a extensão daquele corpo torneado. Para quem me amaldiçoaria, ela estava sendo muito amável.

Mas o diabo mora nos detalhes. Enquanto eu a sodomizava - a posição da Besta, a posição dos animais - pensando que qualquer padreco me excomungaria por aquilo, vi claramente as marcas das costas dela sumirem bem diante de meus olhos perplexos. Um pânico instintivo me fez gritar e jogá-la fora da cama!

Porém caí na cama, enfraquecido, e me vi incapaz de ao menos andar. A mulher veio rastejando novamente para mim, um sorriso diabólico nos lábios, o brilho no olhar quase que dizendo "Ainda não acabei".

Me excitava novamente, e tirava tudo o que podia de minha masculinidade. Fazia loucuras que eu nunca tinha experimentado. Sua língua era como o chicote de um demônio, serpenteando em meus mamilos, descendo para meu umbigo e enfim se deleitando em meu membro.

Desfaleci. Não sei por quanto tempo apaguei, mas quando abri os olhos após o merecido descanso, um homem estava ao meu lado na cama. Sim, um homem!

Tentei levantar, entender o que acontecia, mas ainda me sentia fraco e debilitado. Olhando direito, parecia-se muito com a camponesa. Era idêntico, de fato. Dormia um sono agitado, e eu vi as mesmas cicatrizes no corpo dele.

Antes que minha mente trabalhasse meu aposento foi invadido. Inquisidores. A igreja, faminta por bens, tinha enfim descoberto um barão da luxúria para espoliar. Tudo demorou poucas horas. Me torturaram, mutilaram minha genitália, e meus dedos foram quebrados em nome de Deus, pois eles queriam uma confissão. Eu não cometi pecado algum que não a luxúria, e me mantive em silêncio. Lembrei das palavras da camponesa. A maldição.

Trouxeram o motivo de minha desgraça à minha frente, presa. Era a mulher, também mutilada de tanto apanhar. Ouvi dizerem que se tratava de um demônio chamado de Succubus, ou Incubus. Ele me seduziu na forma de mulher, e após manter relações sexuais comigo, se fortaleceu, enquanto eu me enfraqueci. Após o ato, ele se transforma em homem, até que tenha relações sexuais novamente e volte a ser mulher, e assim indefinidamente vive trocando de forma. Também foi dito que se alimenta de energia sexual.

-Mas, se fez sexo comigo e virou homem, com quem mais fez para voltar a ser mulher?

Nenhum inquisidor me respondeu. Ao contrário, queimaram minha língua com brasas quentes. A pergunta pelo jeito tinha sido delicada demais.

Naquele entardecer três forcas foram erguidas em meu feudo. Uma para mim, outra para a succubus que me possuiu e a terceira, provavelmente para o coitado que transou com o demônio depois de mim. Estávamos em celas separadas, apenas esperando nossa hora chegar.

Ao anoitecer, todos os aldeões estavam à minha frente. Eles riam, me vendo com a corda no pescoço. Ao meu lado, um inquisidor também surrado, pendurado, e na terceira forca, a mulher-demônio. Não parecia nada poderosa agora. Sua arena era no sexo mesmo, onde impunha sua vontade insidiosa e sua força.

O inquisidor começou por ela. Apesar de saber que se tratava de um demônio verdadeiro, preferia pensar que era uma mulher comum possuída. A ladainha começou, enquanto ele a forçava beijar um crucifixo bento:

"Sit haec sancta et innocens creatura, libera ab omini impugnatoris incursu et totius nequitiae purgata discessu. Sit fons vivus aqua regenerans, unda purificans: ut omnes hoc lavacro salutifero diluenti, operante in eis Spiritum Sancto, perfactae purgationis indulgentian consequantur. Unde benedicto te, creatura aquae, per Deum vivum, per Deum verum, per Deum Sanctum: Per Deum qui in principio verbo separavit ab arida: cuius spiritus super te ferebatur."

No fim do exorcismo a mulher cuspiu no Inquisidor. O velho de rosto pétreo ordenou que tirassem o apoio dela, e o demônio pendurou-se pelo pescoço. Gritou blasfêmias e babou, tentou segurar-se, recusando-se a deixar essa Terra. Diante de tanta demora, o velho decidiu que seria melhor queimá-la.

Ganhei mais meia hora de vida, enquanto os inquisidores arrumavam montes de palha embaixo de mim e do outro condenado. Este, aliás, talvez por ter sido um inquisidor como eles, teve uma morte rápida e menos sofrida. Nem chegaram a acender o fogo para ele. Ainda bem, já que o cheiro da mulher até hoje incomoda minhas narinas. Odeio carne queimada.

Eu ainda ouvia os estalos da fogueira da succubus quando o crucifixo foi encostado em meus lábios. O velho me olhou com desgosto e começou a oração novamente. Quando terminou, perguntou sério:

-Você se arrepende de seus pecados perante a igreja, homem?

Minha morte não seria diferente se eu tivesse dito outras palavras. Disse-lhe que não havia cometido pecado algum diferente de minha natureza, lembrei-o do meu baronato e dos meus generosos donativos à igreja que ele tanto prezava, e sorri.

Ele me sorriu de volta, mas também chutou meu apoio. Foi tudo rápido. Dizem que toda a vida passa ante seus olhos no momento derradeiro da morte, mas eu só consegui lembrar de todas as mulheres que possuí na vida, antes da ossatura do meu pescoço quebrar. Minha espinha rompeu e eu escorreguei para a inconsciência, nem senti as chamas me queimando.

Quando acordei novamente, ganhei lindas asas de anjo negro. Sou um Fornicador, e aqui é onde vivo. Pense nisso.

Talvez você esteja se perguntando o que faço no seu sonho...? Eu estou sempre com você. Principalmente quando está fazendo sexo. Sei de todos seus desejos mais íntimos. Seus sonhos, fantasias e perversões. Apenas hoje você descobriu que existo porque eu decidi me mostrar.

Ah, como cheguei até você?

Bem, os fornicadores eu sinto pelo cheiro. Sempre que alguém deseja um parceiro que não é seu, um homem ou uma mulher alheia, lá eu estarei. Sei tudo sobre fantasias negras, sobre desejos escondidos, sobre traição e culpa.

Hoje em dia não existe mais a inquisição. Vivemos numa época cínica, e eu adoro isso. Os culpados fingem ignorância. O pecado se alastra das mais doces maneiras.

Mas, chega de devaneios. É hora de você acordar. Pense bem no que anda aprontando de sua vida...

terça-feira, 7 de maio de 2013

ESPELHOS


Sempre gostei de coisas assustadoras. Era daquele tipo totalmente cética, sempre buscando um desafio para por a prova o sobrenatural. Precisava disto e muitas vezes sequer entendia o porquê, era só um desejo de reafirmar o que eu pensava e talvez, no fundo, uma vontade de descobrir que havia algo mais.

Já tinha tentado parar com estas experiências um milhão de vezes, principalmente por causa de minha mãe, que não via com bons olhos esse meu interesse. Mas quando dava por mim, lá estava eu buscando, em algum site ou livro ocultista, uma idéia para por em prática esse meu estranho vício e, o que posso dizer, foi exatamente isto que ocorreu naquela tarde.

Era uma sexta- feira completamente normal. Voltei da escola e estava almoçando tranquilamente com meu irmão, quando minha mãe veio avisar que sairia com seu novo namorado. Aff, isto era um saco! Desde o seu divórcio, ela vinha saindo e acabava que eu que tinha que bancar a babá, mas naquele dia foi diferente, meu irmão pediu pra dormir na casa de um colega e já que mamãe deixou, eu passaria a noite sozinha.

Logo tive a idéia de aproveitar esse tempo e fazer alguma coisa pra testar meu medo, comecei a pesquisar e descobri algo muito interessante. Chamava-se ilusão do estranho no espelho e era muito simples, consistia em olhar seu reflexo de certa distância, iluminado apenas por uma luz atrás de você e, mesmo o site afirmando que se tratava apenas de uma ilusão, garantia que poderiam ser vistos monstros ou pessoas já falecidas. Assim decidi que era isto que eu faria naquela noite.

Eram 19 horas quando finalmente minha família saiu, depois de me despedir deles resolvi começar. Acendi uma vela e a coloquei numa prateleira que ficava de frente para o espelho do banheiro, apaguei a luz e comecei a encarar minha imagem.

Os minutos passaram, não sei dizer quantos, mas já estava desconfiando de que, como na maioria das vezes, nada aconteceria. Foi então que cometi meu maior erro, me aproximei do espelho, mesmo sabendo que deveria dar um espaço de 40 cm. Tornei a observar meu rosto, agora estranhamente com mais atenção, não sabia exatamente o porquê, mas toda aquela atmosfera estava me absorvendo.

Quando me dei conta, algo muito esquisito acontecia, era como se meu reflexo não acompanhasse meus movimentos, mas, diferente do que se espera, não fiquei com medo, pelo contrário, estava cada vez mais absorta no que via. Até que no meu momento de mais atenção, algo terrível aconteceu, a eu do espelho deu um sorriso totalmente demoníaco que me tirou do estado de quase transe, me fazendo bater violentamente com a cabeça na parede atrás de mim e desmaiar em seguida.

Abri meus olhos e me encontrei deitada em uma cama de hospital, vi minha mãe de relance perto da janela vindo até mim e logo fechei novamente os olhos imaginando que ela viria reclamar do que eu estava fazendo no banheiro, mas não, ela simplesmente me abraçou perguntando se estava tudo bem. Acho que o susto a fez esquecer-se da vela e eu preferi não tocar no assunto.

Pelo restante do dia não deixava de ter a sensação de que algo estava estranhamente errado, era como se o mundo ao meu redor estivesse diferente. Porém me disseram que era por ter passado a noite inconsciente e que por estar tudo certo teria alta no final da tarde. Assim minha mãe ligou para seu namorado que logo chegou para nos buscar.

Ao ver o carro notei algo engraçado, era um carro popular brasileiro, mas no modelo inglês, em que o volante fica do lado oposto ao que estamos acostumados. Tentei lançar um comentário sobre isso ser legal, mas fui respondida com um seco obrigado e achei melhor deixar isso pra lá. Devo ter dormido a maior parte do percurso até minha casa, por que só quando cheguei que tive a certeza que estava perdida.

Sai do carro em desespero ao ver que o numero do portão estava escrito de forma estranha, entrei em casa e tudo parecia no lugar errado, tudo invertido. Olhei um jornal e não conseguia entender o que estava escrito, as pessoas já estava se assustando com a minha reação. Me veio um bolo na garganta e uma vontade de chorar, corri pro banheiro e abaixei pra lavar o rosto e só então me veio na cabeça que estava aonde tudo devia ter começado, tomei coragem e levantei a cabeça só para ter a pior confirmação de todas: Meu próprio rosto no espelho rindo daquela familiar forma sinistra.

Já faz anos que estou neste mundo e bem, posso dizer que me acostumei. Já passei da fase de tentar voltar e hoje apenas evito olhar pro espelho, evito lembrar que alguém se passa por mim no mundo que um dia fora meu. Mas às vezes, só às vezes me pego pensando em como estão todas aquelas pessoas, amigos e familiares, que se tornaram meros reflexos.

E você, de que lado do espelho está?

ARMÁRIO


Já reparou que a porta do armário está sempre aberta? Mesmo que seja só por alguns centímetros? Já reparou que não importa o quanto você tente fechá-la, basta que você saia e ela estará pelo menos um milímetro aberta quando você volta?
 Já reparou que quando pequeno você tem medo que pode haver dentro do seu armário? Já reparou que não importa o quanto você arrume suas roupas dentro dele, no outro dia pelo menos uma estará bagunçada?
Já reparou que em pelo menos 50% das historias de terror os monstros saem do armário? Já reparou que a porta do seu armário faz um rangido quando aberta vagarosamente? Já reparou que você fala enquanto dorme?

  Não?  Bom... eu já reparei.
 Acalme-se pequena criança, não vou te fazer mal, apenas gosto de te ver dormir.

O CUBICULO


Quando criança a escola que eu frequentava era peculiar e, talvez por isso, tão magnificamente interessante. Fosse o fato de ser cercada por arbustos gigantescos e uma floresta densa que dava ignição a minha imaginação, ou os curiosos e caricatos professores e alunos que povoavam ela, eu não sei.  Não tenho certeza de quando foi construída, mas certamente se distinguia dos outros prédios, casas e ruas na região. Sendo coberta por uma tinta vermelho fogo, que puxava compulsoriamente seus olhos para ela. Para lá eu fui dos meus cinco aos onze ou doze anos, e, como toda criança, guardei lembranças agradáveis e desagradáveis.

Todo dia com minha mochila nas costas, passava ao lado da densa floresta e acenava para a "moça do pirulito" Sra. Collins - uma gentil velha senhora que trabalhava no controle do tráfego com sua plaquinha amarela, parando-o quando as crianças iam cruzar a rua, e, após me encontrar com meus amigos, atravessar os velhos portões marrons e ir até um dos pátios.

Havia um rumor que a existência de dois pátios era para separar meninos de meninas - sendo este um conceito tão velho quanto compreensível. Quando passei a frequentar a escola, os pátios agora separavam as crianças de cinco até oito anos, e o outro as de oito para cima. No pátio das crianças mais velhas havia um prédio pequeno feito em tijolos vermelhos que se erguia independente do resto da escola, isolado do complexo. A muito havia caído em desuso, e de fato havia sido selado de olhos curiosos, suas portas e janelas emparedadas com pedras e tijolos tornando impossível de se ver o que havia dentro.
 Seu propósito parecia ser um mistério a todos os professores que pouco sabiam do tópico, mas é óbvio que histórias se espalham pela selvagem imaginação das crianças, e, em minha escola, essa inclinação para histórias de tragédias e coisas proibidas criavam rumores que beiravam o bizarro, particularmente eram sobre o prédio selado - obscuridade é um solo fértil para as fantásticas ruminações do imaginário infantil.

Quando eu e meus amigos éramos do pátio mais jovem, nós costumávamos olhar pela passagem estreita que dava no pátio dos mais velhos para ver o que acontecia. Lá podíamos ver as crianças mais velhas jogando bola ou apenas andando - é divertido nos lembrar de que, quando crianças, as ações dos mais velhos, por mais que banais, parecem ser tão mais divertidas que as nossas. Mas antes que fossemos tirados de lá por algum professor ou pelo zelador, meus olhos sempre iam até o prédio selado. Havia algo de solitário nele, isolado, e por mais que fosse cercado por gritos e pela vibração da escola, sua aparência sugeria um grave silêncio para mim.

As crianças mais velhas gostavam de assustar a elas mesmo e a nós, contando dramaticamente que o local havia sido usado por um departamento de ciência e que havia ocorrido um sinistro acidente lá, um que havia produzido estranhas e assustadoras coisas que deveriam ser mantidas fora dos olhos do mundo - mesmo tendo oito anos, sabia o quão absurdo e sem sentido aquilo era quando ouvi.

Também se falava de ter sido o escritório de um, no mínimo brutal, diretor da escola, que havia morrido num incêndio. Seu fantasma, obviamente, ainda assombrava o lugar e era melhor que o espírito vingativo fosse contido lá, soltando fumaça pelas ventas enquanto as crianças brincavam e se divertiam no pátio tão perto - mais uma vez, pura bobagem.

Havia porém, este relato, da natureza do prédio abandonado, que me parecia mais plausível. O prédio era, de fato, um banheiro. Sim, um banheiro normal. Nada de especial, nada de laboratórios secretos, nada de espíritos de diretores estressados, Havia simplesmente sido fechado por ter se tornado inútil quando banheiros foram incorporados ao complexo da escola, evitando assim que se tornasse apenas um lugar para as crianças invadirem e causarem problemas. Mas ainda assim, apesar desta mundana explicação, ainda haviam de fato histórias a serem ditas sobre o velho prédio de tijolos vermelhos do pátio das crianças mais velhas.

Apesar de ter escutado as histórias, não foi até meu quarto ano na escola que eu me tornei íntimo, e, ao mesmo tempo, desconfortavelmente envolvido com elas. O pátio das outras crianças ela flanqueado por três lados por uma parte retangular da própria escola. O quarto lado separava as casas vizinhas por uma imensa parede vermelho- escuro. Era isolado do outro pátio - sendo somente acessível pela passagem antes mencionada - e, para piorar a sensação de aprisionamento, ao longo da parede havia uma alta cerca de ferro que atingia os cantos onde até o mais bravo colega de classe teria tentado sua grande fuga. Ainda assim, havia um velho portão que permitia acesso ao lado de fora. Mas, tal qual guardas de prisão, os professores costumavam conferir este portão com frequência.

Lá, em um dos cantos do pátio, estava o velho prédio. Suas janelas eram de fato fechadas com tijolo, tal como suas portas, mas o teto parecia diferente para mim, sendo afundado em alguns lugares e certamente tendo acumulado poças de água de chuva nas temporadas mais úmidas. Eu tinha, naquela idade, e, vergonhosamente até hoje tenho, medo de altura. Tão assustador para mim eram alturas quanto foi descobrir que subir até o teto dos velhos banheiros era uma espécie de rito de passagem para os meninos mais velhos. Não me entenda mal, não éramos forçados a subir lá, mas crianças tendem a ser cruéis e quando algum novato chegava ao pátio e mostrava algum sinal de fraqueza, geralmente esse era perturbado com provocações, e, subir no prédio velho o isentava de ser alvo de piadas.

Durante as semanas que se seguiram vi um por um de meus amigos subir até o teto quando a oportunidade aparecia, balançando as pernas enquanto sentados nas bordas uma vez lá em cima; um por um conseguindo provar seu direito de estar no pátio dos mais velhos, enquanto eu sucumbia as provocações sobre meu medo e jeito covarde. Não me diminua, eu tentei. Diversas vezes a bola ia parar lá em cima e todos os olhos se viravam a mim, esperando que eu subisse e pegasse-a. Cheguei mesmo a me aproximar da calha que dava acesso ao teto para ao menos por a mão lá em cima e pegar a bola, mas, toda vez, falhava.

O medo tomava conta de mim quando pensava na derrota, os xingamentos e a vergonha se intensificavam.

Posso traçar aqui um curioso e provavelmente triste aspecto da minha personalidade naquela época. Falhar na frente de estranhos era perfeitamente aceitável para minha mente mas, falhar na frente de amigos, família, colegas ou conhecidos, era um terror imenso para que eu concebesse.
Com o passar dos anos se tivesse eu seguido o esteriótipo de buscar fama como adolescente, não teria tido nenhum problema em tocar em uma banda na frente daqueles que eu não conhecia, mas colocasse no meio da multidão um rosto conhecido, meus nervos se afrouxavam. A proximidade da falha era imensa, ao menos na minha mente.

Por esse motivo escolhi um momento no mínimo inoportuno para enfrentar meu medo. Um dia, após a aula, esperei do lado de fora dos portões, enquanto meus colegas iam embora dos dois pátios, chutando as folhas de outono. Pais escoltando os mais novos de volta para casa enquanto os mais velhos andavam uns com os outros - alguns empolgados, outros não - todos descendo a colina, ao lado da floresta densa, até suas casas e assim por diante.

Ao passo que a escola se tornava cada vez mais vazia, e os próprios professores começavam a ir embora, eu desci a rua e entrei nos jardins que haviam atrás do prédio. Sempre achei a parte de trás do meu colégio um lugar interessante. Consistia em arbustos, matos de todo tipo e um campo de terra batida para se jogar futebol. Nossos professores aparentemente nunca usavam a área para nada, e éramos constantemente encorajados a nos manter longe dela. Mais uma vez, histórias e contos entre os estudantes contavam que uma criança havia sido sequestrada ali anos atrás, enquanto brincava, fosse verdade ou não, nunca soube.

Quando tive certeza de que todos haviam saído, me insinuei através dos arbustos até uma pequena inclinação atrás do pátio. Lá, fundido na parede, estava o estreito portão marrom que os professores mantinham uma vigília constante, mas que, pelo que eu sabia, nunca era usado. Supus que deveria existir um propósito para ele anos atrás, mas para mim e meus amigos era apenas um lugar para se pular nos fins de semana, tendo acesso a escola vazia, podendo brincar de pique esconde com excelência, sendo os pátios lugares com tantos cantos e esconderijos.

Por mais cuidadoso que fosse, queria realmente subir no prédio velho. Na minha cabeça de oito anos de idade, tinha visões de subir lá sorrateiramente e surpreender meus amigos acenando de repente lá de cima, ou de heroicamente resgatar uma bola de alguma garota - na infância julgamos que todos a nossa volta se importam muito com nossas ações, falhas e sucessos, quando de fato não estão muito atentos a nada, sequer nas consequências das próprias atividades. Sim, fui muito perseguido por não ter tido a mesma coragem daqueles ao meu redor e ter falhado em subir logo no prédio, mas a ideia de fazer sumir toda a vergonha pública e sentir aquela sensação nova que a vitória diante de um ato de heroísmo infantil me traria era o suficiente para que eu, pelo menos, tentasse subir.

Havia considerado em pedir a um de meus amigos que me acompanhasse para o caso de algum professor ter ficado até mais tarde, ou do zelador estar limpando aquela área, o que, nestes casos, fazia-se preciso um sentinela, mas a ideia da falha, mesmo diante de um público de uma pessoa só, já colocava a minha escalada tão procastinada em risco. Decidi fazer a subida sozinho, perdendo o medo, de modo a repetir o ato ensaiado na frente dos outros, pondo um fim nas brincadeiras e piadas. Após esperar alguns minutos e observar as janelas que pontilhavam o lado da escola se escurecerem por completo e, satisfeito com o vazio que a escola se encontrava, andei tranquilamente até o prédio abandonado.

Lá fiquei a observar o cano da calha, que seria minha via de acesso, juntando forçadas. Minha mente revirava as possibilidades mais densas, as saídas mais funestas e os acontecimentos mais negativos conforme comecei a subir. Imaginava que a calha fosse se soltar da parede e que eu me encontraria com o chão de concreto do pátio, pondo um fim na aventura.

Mas fato é que ela nunca se mexeu, não importasse o quanto eu acreditei que ela houvesse. Sem testemunhas, aquele havia sido o mais longe que eu já havia atingido, tendo sido capaz de esticar minha mão até o alto e tocar na quina do teto. Meu coração correu com empolgação conforme comecei a acreditar que eu realmente poderia fazê-lo, que o sucesso estava a vista.

Dai cometi o erro de conferir meu progresso. A experiência da altura para alguém que tem dificuldades com ela é algo realmente problemático. Quando na verdade era algo como 2 ou 3 metros, eu visualizei a distância como algo monumental. Meu estômago revirou, meu coração bateu descompensado, e o mundo abaixo de mim começou a girar e distorcer. Pior ainda, a perda de forças naquele momento fraquejou meu corpo ao ponto de sentir minhas mãos se soltarem ao redor da calha.

É estranho como a mente funciona. Eu estava ao ponto de admitir derrota e descer, mas, aguentar a humilhação e as piadas era pior ainda, então, como se estivesse sendo desafiado por vozes invisíveis e uma vontade fortíssima, fiz o maior de meus esforços e subi. Quando minhas mãos tocaram o teto gelado e eu fiquei de pé, mal pude notar que já estava lá.

Deixando sair uma risada de animação, a sensação de alívio e vitória foi esmagadora. Mal podia esperar pelo dia seguinte. Para subir no teto e provar a todos que haviam sido cruéis comigo que eu era tão bom quanto eles. Olhando para o chão lá do alto, ainda sentia uma pontada de medo, mas nada que chegasse aos pés da sensação de poder que tomava conta da minha alma, meu triunfo rompendo minha ansiedade.

Ainda assim, não era bravo o suficiente para ficar lá muito tempo, então decidi investigar os arredores rapidamente e sair de lá para a segurança do pátio e ir para casa, extasiado. O teto era pintado em uma cor vermelho-fogo similar a cor do prédio principal da escola, mas havia a muito descascado e soltado, sugerindo que ninguém visitava ele para uma demão de tinta a um bom tempo
.
Me movendo com cautela, sentia minhas pernas martelarem meu estômago cada vez que pisava só pelo pensamento da altura em que me encontrava, algo não maior que três metros. Ainda assim, não importando o quão nervoso e enjoado eu estivesse, a sensação de triunfo que eu sentia correr em minhas veias era realmente incrível.

Fui de um lado ao outro do teto, completando minha conquista, como alguém que patrulha uma área nova para dizer que é de sua posse, que é seu território. Por aqueles curtos instantes, o prédio era meu.
Justo quando me virei e voltei para descer pela calha até o chão, meu olho atento percebeu algo que não havia visto antes. Um buraco no teto. pequeno, mas o suficiente para que minha mão ou algo maior passasse. Curioso, dei alguns passos e me ajoelhei para ver mais de perto.

Sim, era um buraco, e a luz proveniente do céu da tarde iluminava fracamente o que havia lá dentro. Aproximei meu olho o máximo que pude do buraco sem tampar a luz do sol e me surpreendi com o que eu vi. Lá abaixo na escuridão, como uma tumba perfeitamente bem preservada, estava o banheiro branco e intacto. Conseguia ver as pias onde os estudantes anos atrás lavavam suas mãos ou jogavam água um nos outros por diversão e três divisórias - cubículos com portas de um marrom extremamente escuro - bem conservadas como se ainda estivessem em uso. O ar interno estava impregnado com poeira e idade mas se houvessem me contado que o prédio fora fechado ontem, eu teria acreditado. Tudo perfeito por exceto uma coisa, uma camada de água suja que cobria o chão, sem dúvida acumulada lá após tantos anos de chuvas.

O cheiro que senti me acordou de meus devaneios de explorador. Um forte e marcante cheiro que apertou minhas narinas e machucou meus olhos. Sem dúvida alguma alguém fumava ali perto. Um professor ou o zelador. Meu coração paralisou, e eu me odiei por ter tomado tanto tempo comemorando minha vitória. Sem dúvida, também, a pessoa estava no pátio logo abaixo, talvez até perto da calha, pois de tão perto o cheiro do cigarro era denso e opressivo.

Me mantive encolhido no frio e molhado teto esperando que fosse lá quem estivesse próximo, que fosse embora logo. A fumaça agora parecia praticamente cáustica, assando o ar com sua força. Diversas vezes tive de segurar minha respiração para não tossir ou espirrar, amedrontado com a ideia de ser pego. Acredito que não seja exagero falar que fiquei meia hora sem me mover, ainda assim, não me tomou sequer um segundo para que pudesse fazer uma notável observação. Por mais que eu pudesse sentir o cheiro da fumaça - de um cigarro infinito ou de um maço inteiro dado o tempo que se estendia - eu não conseguia vê-la. Deveria poder ver as nuvens cinzas subirem, mas sequer o mais fino sopro era visível.

O céu outonal escurecia e eu ficava mais e mais frustrado conforme a fria laje de pedra me arrepiava. Desejando nunca ter subido lá, pra começar, senti a fome se aproximar e percebi que meus pais já estariam preocupados comigo aquela hora. Me persuadi a pelo menos olhar rápido pela borda do prédio para ver quem estava lá a tanto tempo. Talvez, se a pessoa estivesse do outro lado do prédio, eu poderia descer e fugir sem ser notado. Me esgueirei através do teto e silenciosamente olhei para baixo, para me certificar de que nenhum movimento brusco fosse produzido, deixando assim de chamar a indesejada atenção.

Não havia ninguém lá. O pátio estava vazio e as janelas escurecidas do prédio principal pareciam tão vazias como estavam antes. Ainda assim o cheiro impregnava meus pulmões e o sabor se instalava na minha língua. Nesse exato momento, vi algo que me gelou até os pés. Um solitário e fino fio de fumaça subia do buraco no teto. Alguém estava no banheiro abaixo de mim,

Isso pareceu absurdo e impossível. Pelo que eu sabia, não havia como entrar. O prédio era selado totalmente do mundo externo, mesmo assim, lá estava. Uma nuvem de fumaça logo acima do buraco do teto, saindo da boca de alguém não visto logo abaixo.

Meu triunfo de ter finalmente vencido meu medo de altura pareceu algo muito distante agora, uma memória. E tudo que eu podia pensar era em descer daquele teto para a segurança logo abaixo. Mas eu nunca vou saber porque  a curiosidade foi maior naquele momento e eu tinha de ver o que fazia a fumaça lá de baixo. Fui até o buraco para uma rápida olhada, seguida da minha rápida fuga e corrida até minha casa.
Ao me aproximar da abertura, o cheiro se afirmava e as palavras "não olhe" dominavam minha mente. Mas era tarde demais. Eu havia olhado. A princípio, não havia nada. O local logo abaixo de mim parecia mais escuro do que antes, mas poderia ser minha visão se acostumando com a falta de luz. O que não podia ser explicado era o barulho que eu ouvi vir de dentro.

Pareceu distante de início, indistinto e incerto. Então gradualmente tomou forma, soando para mim como alguém se sufocando. Sorri sozinho pensando que provavelmente era a fumaça do cigarro que causara aquilo e que os moleques da região tinham um esconderijo ali. Mas, como não poderia deixar de ser, de súbito, na densidade da fumaça meus olhos foram atraídos para um dos cubículos. A sua porta estava fechada mas ainda assim eu não estava convencido de que ela estava daquele jeito antes, momentos atrás quando havia olhado pela primeira vez. Como se ela houvesse sido fechada. Inclinei minha cabeça mais para perto mais meu ângulo de observação não permitia que eu visse dentro do cubículo.

Ao que o som do sufocamento aumentou em volume, também aumentou a fumaça. O som e o cheiro se uniam de um jeito que deu calafrios na minha alma. Entrei em pânico, deixei sair um grito quando vi a porta estremecer diante de um chute violento que alguém dera pro dentro. A fumaça tomara meus pulmões e olhos e eu não conseguia ver nada nem dentro nem fora do prédio.

Então cessou. O som do sufocamento desapareceu, e o cheiro de fumaça simplesmente se foi. Por um momento pensei ter imaginado tudo. Respirei fundo enchendo meus pulmões, só para que o terror tomasse lugar mais uma vez. No negro e frio silêncio do banheiro a muito esquecido abaixo, o som de passos na água preencheu o ar. Então, aos poucos, a porta do cubículo começou a abrir.

Não sei dizer o que de fato aconteceu após aquilo. Acho que bloqueei grande parte da minha memória. Aparentemente o diretor - um homem intimidador porém muito gentil chamado Sr. McKay - estivera trabalhando até mais tarde, do outro lado do prédio da escola. Quando foi percebido o som de meus gritos ele correu para fora e me achou enrolado como uma bola no teto dos banheiros velhos, paralisado de medo, soluçando. Após algumas palavras tranquilas, ele me ajudou a descer e me levou até o seu escritório onde mais uma vez garantiu minha segurança, ligou para meus pais para que me buscassem e ficou de olho em mim até que eles chegassem.

Confiei na imparcialidade do Sr. McKay conforme eu lutava contra as lágrimas para contar tudo que lembrava. O teto, a fumaça, o cubículo. Ao contar a história a ele, o sangue fugiu de seu rosto e pude sentir ele gelar. Pensei muito no que ele me falou após ouvir minha história. Talvez ele só quisesse me assustar para que eu e outros não subissem mais lá, mas ele me pareceu extremamente genuíno com o que me relatou.

Ele me disse que anos atrás havia acontecido uma tragédia com uma garota de doze anos na escola. Garota essa que ele se recusava a nomear. Ela tinha a reputação de ser difícil. Os professores tentavam o melhor que podiam para se comunicar com ela, atrair sua simpatia e cativá-la, mas ao que parecia ela tinha um histórico de violência doméstica e era praticamente impossível de se controlar. Havia sido suspensa diversas vezes por violência e constantemente brigava com outros estudantes.

Um dia ela havia decidido faltar a aula e conseguiu persuadir duas outras garotas a se juntarem a ela prometendo um cigarro a cada uma. Então, com o desenrolar dos fatos, as garotas se esconderam quando o sinal tocou e se foram aos banheiros. Os detalhes do que ocorreu em seguida eram nebulosos, mas ficou claro que a garota teve algum problema com desmaio, tendo morrido e ficado por ali mesmo. As outras garotas alegavam terem ido embora antes de qualquer coisa ter acontecido, mas haviam rumores que poucos falavam, mas muitos acreditavam. Rumores de que a garota estava com as amigas quando desmaiou, e com medo de serem pegas fumando e faltando a aula, elas colocaram a amiga no cubículo, fecharam a porta e a deixaram lá.  Se elas acreditavam que a garota ia se recuperar ou não era objeto de muita especulação. Os arranhões e marcas dentro do cubículo sugeriam que ela passou a se convulsionar e  se debater, talvez até mesmo em uma luta para fugir dali e gritar por ajuda.

Após o ocorrido o prédio foi fechado e a escola junto com a comunidade deram o melhor de si para colocar a tragédia para trás, apagar aquilo de suas memórias. Talvez o Sr. McKay tenha inventado tudo para me assustar, tenha se aproveitado de tudo que eu lhe contei para criar uma história que me traumatizasse para nunca mais sequer pensar em voltar a subir lá.

Infelizmente, algumas tristes consequências se seguiram. Eu de fato evitei o prédio a todo o custo. Meu medo de altura não era nada comparado ao desespero e horror que o prédio era para mim agora. Meus colegas, é claro, não acreditaram na minha história, me acusando de mentir sobre tudo para evitar que fizessem piadas. E, ao que eles sabiam, eu nunca havia subido lá. Por fim, eu acabei me confrontando com um sonho repetitivo durante minha infância. Um no qual eu acordava coberto de suor frio, enrolado no canto da cama, gritando. Sabia que nele, no sonho, eu estava no topo do prédio, olhando pelo buraco dentro do local abandonado, mas a memória sempre me é vaga. Tudo o que resta é uma impressão, da porta do cubículo se abrindo lentamente, e de algo olhando direto em meus olhos lá de dentro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

LIARS(mentiroso)


Era uma vez um cara em nosso bairro chamado Jimmy, ele sempre falava coisas que o metia em um monte de problemas e ele raramente aprendia a lição. Ele estava muito feliz com quem ele era e ele se recusava a mudar. Quando as pessoas lhe perguntavam por que ele não mudava desse seu jeito "verdadeiro", ele sorria e dizia: "A honestidade é a melhor política, porque pelo menos eles não estão escondendo nada de mim e nem eu estou escondendo nada deles."

Um dos garotos, com raiva das brincadeiras de Jimmy, não gostou dessa brincadeira e a levou como um insulto. Então, ele chamou outros caras que não gostavam de Jimmy e eles encurralaram Jimmy depois da escola na sala de ciências.

"Ora ora ora, se não é o nosso Jimmy brincalhão ... Eu quero que você se lembre disso como um aviso!" Brett, o líder do grupo, disse enquanto olhava nos olhos aterrorizados de Jimmy.

Brett pegou um pouco de ácido súlfurico do laboratório e jogou no rosto de Jimmy. Eles ficaram em torno dele para vê-lo gritar de agonia enquanto o ácido queimava sua pele, eles escutam um barulho e Jimmy corre pela sala e os outros meninos correm atrás dele, fingindo estar preocupados e querendo ajuda para ele.

Quando os paramédicos chegaram e foram levar Jimmy para o hospital (ele não era mais capaz de gritar), o diretor perguntou aos meninos se eles sabiam o que aconteceu. Brett explicou que eles estavam passando quando viram Jimmy se escondendo em torno da sala do laboratório, no momento em que cheguaram lá, ele já estava nesse estado. Os outros membros se juntaram e apoiaram Brett com outros detalhes falsos, enquanto eles diziam, Jimmy gemia, mas não podia falar. O diretor concordou e disse que falaria com eles depois, pois ele ia falar com Jimmy e pegar o seu lado da história depois que ele estivesse fora do hospital.
Alguns dias se passaram e Jimmy foi mantido na UTI, com curativos no rosto, os médicos salvaram o pouco que podiam de seu rosto, a sua visão ainda estava intacta em um dos olhos e sua mandíbula resistiu, apesar da perda de carne por causa do ácido. Ele ainda era incapaz de falar e se recusou a responder. Ele apenas ficou lá, sem piscar os olhos e olhando para o teto. Quando ele foi liberado algum tempo depois, ele não respondeu nada a qualquer pessoa com qualquer coisa que não seja com a palavra "mentirosos".

Ele estava incapaz de sorrir, então se isolava em seu quarto e começou a planejar. Pensamentos vingativos e macabros começaram a surgir em sua mente, ele iria matar todos, um por um, dizimá-los, cortá-los, queimá-los. Ele esperou pacientemente até que o grupo estivesse vulnerável, tarde da noite, quando eles se despediram e foram para casa separadamente. É quando ele iria atacar.

Naquele fim de semana, Brett recebeu um pacote pelo correio. Curioso, ele abriu e encontrou uma fita VHS com as palavras "Para você" escritos com uma caneta preta. Ele colocou a fita e começou a assistir.

Era um vídeo caseiro muito mal gravado por alguém desconhecido e que não dizia nada sobre a duração do filme. O vídeo começava com a câmera apontada para a data em um jornal, datado de ontem. Como o vídeo estava sem zoom, dava pra ver que era em um porão. Na frente da câmera dava pra ver que era um dos amigos de Brett. Ele estava nu, com uma venda em torno de seu rosto sujo e uma mordaça na boca. Ele estava coberto de sangue, com queimaduras horríveis, cortes e feridas. Uma palavra grande no video chamava bastante a atenção.

O cinegrafista estava com as mãos enluvadas, tirou a mordaça da boca do menino que estava chorando e pedia para ir para casa.

"Por favor, por favor me deixe ir... eu ... Eu fiz o que você queria! Oh Deus ... Jesse, Mike Keith .... você me fez porra mata-los! Eu só quero ir para casa... Por favor .... Me desculpe"

Ele só ficava repetindo isso mais e mais, se balançando para frente e para trás.

Enquanto assistia isso, as pernas de Brett começaram a tremer, ele podia ver as atrás do garoto, corpos mutilados e queimados. Os corpos de seus amigos. Todos eles tinham marcas em seu corpo, queimados e mutilados.

O cinegrafista estendeu a mão para o queixo do rapaz, que se levantou. Ele se levanta e vai em direção a uma porta para fora da visão da tela, choramingando. Brett podia ver agora as palavras do vídeo. A palavra "mentiroso". A câmera corta temporariamente.

Quando o vídeo retorna, Brett percebe que não está mais no sótão. O câmera-man está em um lugar com muita neve, nos arredores do bosque e não parece ser a mesma pessoa que está segurando a câmera dessa vez. É o amigo de Brett. Ele está chorando e tremendo enquanto ele segura a câmera em algum lugar por 30 segundos, apontando para algumas árvores na distância, e dava para escutar alguns passos cada vez mais perto.

"Onde está você? Você disse que eu poderia ir embora! Você disse que eu poderia ir! "

O menino está gritando e chorando, com medo do som de trituração que se aproxima de aparentemente todos os ângulos.

Ele pára.

Ele se vira para ver o rosto mutilado de Jimmy, um lobo uiva à distância e a palavra "Liars" (mentirosos) aparece antes que a fita pare abruptamente.

Brett se sente fraco e algo bloqueia a porta da frente, ele sabe o que estava por vir. Quando ele se vira para correr, ele e acertado por algo e cai para trás.

Jimmy sussurra "mentiroso" no ouvido de Brett antes que um ácido escorresse pelo seu rosto e lentamente começa a corroer sua carne.

A última coisa que ele vê é o rosto de Jimmy, se contorcendo em um sorriso macabro