terça-feira, 16 de abril de 2013

o velho


Conta a lenda, que havia um velho muito triste que vagava pelas ruas de uma pequena cidade do norte dos Estados Unidos. O velho, que há muito andava sem saber, sempre com aquela incerteza que em certos momentos carregamos, de não saber o que vamos fazer.
Certa noite, o velho caminhava por uma rua escura que acabava em uma encruzilhada. Sem rumo, perdido em meio a noite negra que o rodeava, começou a escutar uma voz, de inicio distante e indistinguível mas que logo aumentou e dava a impressão de que estava se aproximando. Na penumbra, o velho viu a forma de uma mulher, que cantarolava suas palavras, saltitante vindo em direção ao velho, dizendo: ”_Qual é o seu terceiro desejo?”
O velho, pasmo, se esforçava para enxergar a mulher. Continuou a andar, passando por ela, imaginando que não era nada com ele. Mas a mulher veio atrás, dançando e cantarolando as palavras em volta do velho: “_Agora, seu terceiro desejo. O que vai ser?”
O homem irritado, parou! Tentado fixar sua visão na agitada mulher, indagou:
“_Que maldição, o que você quer mulher?”
E ela novamente disse cantarolando:
“_O seu terceiro desejo”
“_Terceiro desejo?” O velho estava em confuso. “Como posso ter um terceiro desejo se eu não tive nem o primeiro nem o segundo?”
“Você já teve seus dois desejos,” cantarolou a mulher, “mas seu segundo desejo foi para que eu retornasse tudo como era antes de você fazer seu primeiro pedido. É por isso que você não se lembra de nada; porque tudo está do jeito que era antes de qualquer desejo.”
Ela continuou, atiçando o pobre homem. “_Então, você tem um desejo sobrando. O que vai ser?”
“_Tudo bem,” falou, “Eu não acredito nisso, mas não tem nada de mal em desejar. Eu desejo saber quem eu sou.”
“_Engraçado,” disse a mulher enquanto completava o desejo e desaparecia. “Esse foi o seu primeiro desejo.”
Hoje o velho sabe quem é mas trocaria tudo que tem para não saber!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

a vida é curta

Eu estava lá, encostado na parede dos fundos da sala do hospital, quando você nasceu.

Não muito tempo depois, chegou seu primeiro dia na escola, e eu vi você ir para a aula, enquanto estava no telhado da escola.

Ansiosamente eu vi você crescer, mudar, experimentar a vida. Você era especial em suas próprias maneiras, mas visto a distância, era igual a todos os outros.

Quando seus pais assistiram sua cerimônia de formatura, eu estava escondido no meio da multidão. Você parecia tão feliz. O mundo inteiro em frente de você... Você achou que ficaríamos juntos para sempre. Mas eu já sabia que não. Essas coisas sempre acabam do mesmo jeito.

Sentei-me com tédio total na borda de sua mesa, enquanto você trabalhava sem parar durante toda a sua vida. Você me decepcionou completamente, me ignorou, sempre ficava dizendo "mais tarde", como todos os outros idiotas por ai.

"Mais tarde" poderíamos viajar. "Mais tarde" poderíamos dormir o dia todo. "Mais tarde" você gostaria mais de mim, me amaria mais, me respeitaria mais. Mas não, você acabou se tornando só mais um. Eu acho que deveria ter sentido pena de você, mas na verdade, já estou muito acostumado com isso.

Eu silenciosamente respirei o perfume de seu cabelo e vi a cor evaporar, deixando somente aquele cinza esbranquiçado. Você costumava ter uma variedade enorme de cores e humores vibrantes, mas você me culpou por rouba-las. Você não pôde sentir enquanto eu lambia sua pele, minha saliva corrosiva queimando as rugas em sua carne (que já fora tão suave e saudável).

Ficou sempre no "mais tarde" até ser tarde demais. Quando você finalmente se aposentou, era muito tarde para todos os seus planos comigo. E não havia nada que eu pudesse fazer, exceto pelo que eu sempre fiz: esperar e assistir.

Um vaso, triste e vazio, descansava ao meu lado no parapeito da janela do seu quarto de hospital. Eu pacientemente contemplava sua forma fulminar. Poderia dizer que você me perdeu, então, perto do fim. Como tantos outros antes de você e muitos que ainda virão, você desejou ter apreciado mais de mim. Você chorou a sua família, chorou por mim, mas eu simplesmente me sentei e assisti.

Eu era o único observando quando você finalmente faleceu.

Com um encolher de ombros, fechei seus olhos, e em seguida, abri outros. Eles se encontravam dentro de uma pequena cama na parede de trás da sala de parto onde você mesmo nasceu. Parecia que haviam passado somente meros momentos desde o dia em que nos conhecemos. Mas toda a sua vida passou num piscar de olhos.

Com o tempo, passo a ver as coisas de maneira diferente de vocês, mortais.

Talvez este próximo gostará um pouco mais de mim.

tesouro na lata

Quando eu tinha dez anos, eu e meu irmão adorávamos assustar um ao outro e também assistir filmes de terror. Nós vivíamos em uma velha casa de fazenda nos subúrbios da cidade. Um dia nós decidimos cavar por ali procurando por tesouros, eu sendo uma criança e ele um adolescentes que eu tinha que obedecer. Nós começamos nos arbustos de rosas perto de uma linhagem de árvores à esquerda da entrada da nossa garagem. Eu cavei por um minuto e então atingi alguma coisa. Era uma lata pequena, suficiente para colocar um pão de forma inteiro dentro. Nós tiramos ela do buraco. I cheiro era horrível, mas decidimos colocar na varanda da frente.

Na manhã seguinte, minha avó que morava com a gente comentou que tinha visto uma mulher vestindo um vestido de casamento na noite anterior, e que ela parecia estar procurando por alguma coisa. Minha mãe não deu ouvidos à ela mas meu irmão que sempre achou que achou que a casa era assombrada, ficou apavorado. Nós não ficamos pensando muito nisso e continuamos com nosso dia. Eu tinha esquecido da lata do dia anterior e dormi bem naquela noite. Mas meu irmão não e começou a falar para nossos pais sobre ter visto algo durante a noite quando ele foi no banheiro de madrugada.

Por causa disso meu pai decidiu mostrar-nos algo que nos chocaria pra sempre. Ele pegou um livro que ele tinha guardado em seu armário. Era uma autobiografia da agricultura familiar que tinha vivido na nossa casa anteriormente mas tinham acabado por se mudar para outra casa no final da rua. Nós estávamos olhando para as velhas fotos e lendo um trecho, que detalhava a construção da casa no final do século XVII. Acontece que ela foi construída para uma casal recém-casado que estavam esperando um bebê. Aí é que a coisa fica assustadora. A mulher deu ao bebê já morto e ele acabou sendo enterrado aonde? Em uma lata sob as roseiras. Eu e meu irmão fomos imediatamente e enterramos de volta aonde estava antes e nunca mais voltamos lá.

No dia seguinte, nossa vó disse que tinha visto a mulher novamente mas agora ela estava segurando um bebê em seus braços.

conversa pelo facebook


Eu conheci James Vickers quando tínhamos cerca de 12 anos. Éramos vizinhos de porta, e eu costumava ir lá fora ao meu quintal jogar futebol sozinho, chutando a bola contra o muro. Foi assim que eu o conheci. Demorei um pouco para perceber seu rostinho de óculos olhando para mim da janela de seu quarto. Quando eu o vi, acenei para ele. Ele acenou de volta e abriu a janela para conversar comigo.

Falamos sobre muitas coisas. Interesses, comida favorita, jogos, todo tipo de coisa. Eu perguntei a James se ele queria descer em meu quintal para jogar futebol comigo. Ele recusou educadamente, dizendo que ele havia sofrido terrivelmente com asma, entre outras doenças, e que seus pais absolutamente se recusavam a deixá-lo sair pra fora de casa, ou deixar que alguém entre lá. Ele me perguntou se eu tinha uma conta no Facebook, e disse que gostaria de me adicionar para mantermos contato.

Verifiquei meu Facebook mais tarde naquela noite e aceitei o pedido de James, e a partir daí, ficamos conversando. Desse dia em diante, foi basicamente assim que nossa amizade progrediu. Eu ia pra escola de manhã à tarde, chegava em casa, fazia meus deveres e ia direto pro Facebook. Tínhamos um horário especifico para conversarmos, já que seu pai usava o computador pra trabalhar até tarde. Nosso horário de encontro era exatamente às 2:00. Passávamos a madruga inteira conversando, e só íamos dormir quando começasse a amanhecer. Foi assim durante cerca de 5 anos. Infelizmente, as doenças de James levaram a melhor sobre ele, e ele acabou ficando muito doente.

Até que o inevitável aconteceu. Eu não falava com James no Facebook durante muitos dias. Até passava algum tempo no meu jardim, esperando que ele abrisse a janela e me deixasse saber que ele estava bem. Ele nunca o fez. Ao invés disso, seu pai veio até minha casa numa noite de sábado e me entregou um pequeno convite para um funeral. "Ele nos disse sobre o quanto você dois tinham em comum." Seu pai me disse. "Você era seu único amigo, até onde sabemos."

O funeral foi muito tocante. Eu fiz o meu melhor para segurar minhas lágrimas, mas completamente perdi o controle quando Fields of Gold (sua musica favorita) começou a tocar enquanto eles levavam o caixão de James para longe. Depois do funeral, ainda vestido com meu terno, decidi pegar uma cerveja e minha velha bola e sai pra brincar um pouco no mesmo jardim onde eu havia conhecido James, em sua homenagem. Senti-me estranho ao saber que a sala que ele usou para falar comigo pela primeira vez agora estava vazia e desocupada.

Mas por mais triste que eu me sentia, eu sabia que ele estava em um lugar melhor agora. Um lugar aonde suas aflições não iriam mais incomodá-lo. Porém, sua morte tinha chegado tão de repente que o funeral simplesmente não tinha feito com que a ficha caísse pra mim. Talvez eu precisasse de algum tipo de “fechamento”, apenas para ter certeza de que James realmente havia partido, e não iria mais voltar. Então, naquela mesma noite, eu entrei no Facebook, mais uma vez, abri a janela de conversa de James, e digitei: "Olá, James". Neste momento eu percebi o quanto estava sendo bobo, e prontamente me levantei da cadeira, fechei as janelas e fui me deitar na cama. Eu deixei meu Facebook aberto, apenas para o caso de algum dos meus amigos me enviar alguma mensagem importante, mas acabei pegando no sono.

Porém, quando acordei na madrugada do dia seguinte, vi algo que arrepiou os cabelos de minha nuca. A única luz acessa que se emitia no quarto era da tela do computador, e quando olhei pra tela, na janela de conversa de James ainda aberta, vi as palavras "Visualizada às 2:00".

minha namorada

Minha namorada e eu começamos nossas vidas adultas a pouco tempo e resolvemos morar juntos. Eu tenho 20 anos e ela 19. Em uma noite, ela adormeceu na sala de estar enquanto estávamos no sofá assistindo um filme.

Eu ouvi um barulho vindo do banheiro da nossa suíte, quase como se algo tivesse caído da prateleira de medicamentos. Eu acordei minha namorada quando me levantei do sofá. Ela olhou para mim e sorriu, "Onde tu tá indo, amor?" disse sonolenta. Eu disse para ela que achava ter ouvido algo, que provavelmente não era nada, e só queria dar uma olhada e ela acenou com a cabeça e voltou a cochilar. Ela estava meio estranha. Um pouco pálida, um tanto doente. Toda a situação era esquisita. 

Normalmente, ela não é do tipo que fica feliz quando é acordada do nada. Eu encolhi os ombros e fiz meu caminho para o quarto com todo o cuidado possível, desconhecendo o que tinha feito aquele barulho. Quando abri a porta e liguei as luzes, meu coração saltou na garganta.

Lá estava minha namorada, dormindo na nossa cama. Eu tirei as cobertas de cima dela. Ela se sentou na cama e começou a me xingar. As frases eram algo do tipo "Que merda é essa que você está fazendo, porque as luzes estão acesas, não tá vendo que eu to dormindo?" Eu expliquei a situação para ela. e irritada ela explicou que tinha acordado cedo na manhã e tinha ido para a cama porque ali era mais confortável. Ela deu os ombros dizendo que eu estava sonhando ou provavelmente imaginando que ela estava no sofá comigo quando eu me levantei. Mas tinha sido tão real. E isso não explicava o barulho vindo do banheiro. Até hoje eu não faço ideia do que aconteceu naquela noite, ou quem estava comigo no sofá, mas eu sei o que eu vi e sei que era real. 

suas vidas


Se você passou por algumas dúvidas sobre esse mundo, do tempo do começo ao fim, eu vi tudo.

Ou pelo menos eu achava assim. Pois eu descobri você. Não há nada que exista ou já existiu nesse planeta que sela mais lindo que seu rosto, quando se contorce em um grito que só é alcançado através do terror máximo. Eu encontrei um motivo para continuar nesse mundo. Pois não há nada no inferno comparado a isso. Nesse, há muitas vidas de entretenimento. Sim, muitas vidas.  Pois eu tenho de me manter com você no seu deplorável tempo de vida. Sem conhecimento, você será meu brinquedinho por milênios. Você irá, claro, morrer, como todos os lamentáveis humanos morrem. Mas eu o darei o presente da reencarnação. Bem, é um presente nos meus eterno ver. Um presente para mim mesmo. Você irá passar por seu dia-a-da em um estado de total paranoia. Não há escapatória. Eu vou te seguir por todos os lugares. Se você contar para alguém sobre a terrível criatura que está te perseguindo, te torturando, eles te colocaram em quarto maravilhoso, macio e quieto. Bem, seria quieto se não fosse por seus gritos. Pois nesse quarto, eu e você ficaremos sozinhos.

Eu vou adorar ver todos os seus suicídios. Será uma folga divertida, ver você se torturar se matar sem minha ajuda. Porque, claro, morrer não fará você escapar. A única coisa que a morte te trará é um corpo novo, fresco, e ignorância total. Um novo começo para mim...

É melhor você tentar dormir um pouco. Você tem um grande dia a sua frente.

Não que eu deixarei você dormir, é claro.